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Zilbovicius fala da Marcha da Vida e dá dicas de viagens na Europa e em Israel

Celso Zilbovicius (foto acima em Jerusalém/álbum de família) nasceu em 1962 no bairro do Bom Retiro, área central de São Paulo – antigo reduto dos judeus na capital paulista. Zilbovicius estudou no Colégio Renascença e depois na Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP), onde se graduou em 1984. Lá também atua como docente.

A atuação de Zilbovicius na comunidade judaica vem dos anos 1980, onde sempre trabalhou nas áreas de Educação e Juventude. “Em 1992 iniciei minha atuação com o projeto Marcha da Vida, que então era muito incipiente em São Paulo”, recorda ele, em entrevista por e-mail, ao 18viagens.

“Entre 1995 e 2000 atuei como assessor executivo do Departamento de Educação da Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp), onde me aprofundei nas questões de ensino e educação judaicas. Foi uma grande escola”, afirma Zilbovicius. Foi desta época que eu o conheci.

“Em 2006 fui convidado para assumir o cargo de diretor educacional do projeto Marcha da Vida, que estava sendo retomado agora pelo Fundo Comunitário de São Paulo. Este projeto existe até hoje e continuo atuando nele.”

Zilbovicius (à esq.) com integrantes do grupo brasileiro na Marcha da Vida, no antigo campo de extermínio nazista de Birkenau (Auschwitz II), na Polônia (foto reprodução do site do Fundo Comunitário de São Paulo)
Delegação brasileira na Marcha da Vida, na entrada do antigo campo de extermínio nazista de Auschwitz, na Polônia, com Zilbovicius à esq. (foto reprodução do site do Fundo Comunitário de São Paulo)

Nesta entrevista, Zilbovicius fala sobre a importância da Marcha da Vida, o que visitar em Israel, na Alemanha, na Lituânia e na Polônia. Sempre com detalhes e justificativas muito interessantes. Confira!

18viagens – Como você analisa este projeto, a Marcha da Vida, que é uma viagem à Polônia e a Israel? Por que é tão importante para os jovens judeus do mundo inteiro?
Celso Zilbovicius – Este projeto vai além de uma simples viagem. É um tipo de viagem que, pelas características, te marca pelo resto da vida. Na época que você viajou a viagem se caracterizava pela participação efetiva numa marcha entre Auschwitz e Birkenau, na Polônia, a visita a alguns marcos históricos na Polônia e continuação para as celebrações do Dia da Independência de Israel, já neste país.

Hoje o projeto brasileiro é realizado com jovens entre 20 e 35 anos e ocorre em julho, ou seja, sem estes eventos. A experiência é única, pois você, ao mergulhar num passado não tão remoto mas nefasto igualmente, conecta-se com o que há de pior na essência humana e com o que o ser humano foi capaz de fazer a seu semelhante na primeira metade do século 20, um século de tanto desenvolvimento humano e no meio do continente europeu, onde dali nasceram também nossas referencias de filosofia, arte, cultura, música e tantas outras maravilhas.

É também um mergulho na história do povo judeu numa região que muito influenciou o judaísmo, a Europa Oriental. Por último, representa o contato com o presente do povo judeu que é a visita a Israel – Estado judeu fundado logo após a tragédia na Europa. Uma viagem de contrastes permanentes onde o mal e o bem se deparam, a tristeza e a alegria se dialogam e as reflexões se multiplicam. Hoje o projeto viaja também a Berlim, que é por si só uma experiência única e fascinante. Significa poder conhecer o processo de memória do povo alemão que, com muita dignidade, reconstrói sua identidade e suas memórias que, mesmo sendo muito tristes como perpetradores, não são esquecidas.


Grupo brasileiro da Marcha da Vida junto ao monumento aos heróis do Gueto de Varsóvia, na capital polonesa (foto reprodução do site do Fundo Comunitário de São Paulo)

18viagens – Você já fez várias Marchas da Vida. Dentro do roteiro da Marcha, o que você destaca, para quem não for fazer o programa, visitar na Polônia para ter uma noção profunda e aprender mais sobre o Holocausto?
Zilbovicius – Varsóvia e Cracóvia são visitas obrigatórias. Varsóvia é muito significativa, pois foi antes da Segunda Guerra Mundial a cidade com a maior população judaica de toda a Europa e no mundo – perdendo somente para Nova York (EUA), ou seja, um legado muito importante e que hoje está retratado no Museu Polin, um dos maiores museus judaicos do mundo recentemente aberto. Está situado na Praça dos Heróis do Gueto, onde se situava o maior gueto da Europa e onde houve o importante levante contras tropas nazistas.

O edifício do Museu Polin, em Varsóvia (foto Claudio Schapochnik/18viagens)

Cracóvia, antiga capital do Reino da Polônia, é uma cidade muito conservada historicamente com um belíssimo patrimônio inclusive judaico, pois as sinagogas não foram destruídas durante a guerra. Além disso o Museu de Oskar Schindler, que se tornou célebre pelo filme de Steven Spielberg (A Lista de Schindler, 1993), foi recentemente reformado e conta muito bem a história não só dele e de sua célebre lista, mas a história dos judeus de Cracóvia.

No alto, o gabinete de Oskar Schindler e acima fotos de sobreviventes da lista do industrial alemão, no museu em Cracóvia (fotos Claudio Schapochnik/18viagens)

Quem tiver tempo, vale a visita a cidade de Lublin, no Leste do país, onde se situa o campo de extermínio de Majdanek. Está relativamente bem conservado e onde se pode ter uma noção do que foi a máquina de morte nazista.

18viagens – Você tem origem judaico-lituana e já visitou a Lituânia. Daquele país do Báltico, o que você indica visitar ligado aos judeus antes e depois do Holocausto? Por quê?
Zilbovicius – A cidade de Vilnius (Vilna, como era conhecida entre os judeus) era um dos centros de estudo de judaísmo mais importantes da Europa e sede de muitas academias rabínicas importantes. Hoje pouco restou, mas a comunidade judaica local restaurou a grande sinagoga e o cemitério, onde há túmulos que guardam capítulos importantes da história dos judeus lituanos.

O gueto de Vilna foi transformado na cidade histórica da cidade que foi restaurada após o final da União Soviética, em 1990. Na periferia de Vilnius encontra-se a floresta de Ponar, para onde foram levados e massacrados cerca de 100 mil judeus de Vilnius e demais cidades lituanas entre os anos de 1941-44. As valas comuns ainda podem ser vistas com um monumento em homenagem às vítimas.

No alto e acima, monumentos na floresta de Ponar, na periferia de Vilnius: local de massacre de judeus lituanos (fotos Claudio Schapochnik/18viagens)
Rua do antigo gueto de Vilnius (foto Claudio Schapochnik/18viagens)

18viagens – Gastronomia. Onde você vai quando quer comer em São Paulo e Israel?
Zilbovicius – Não sei se teria espaço para tantas dicas, mas tentarei as principais. Em São Paulo, temos o Emporium Brasil Israel (antiga Casa Menorah), no Bom Retiro, que penso que ainda é o melhor lugar para as delícias judaicas incluindo a melhor chalá da cidade (pão de Shabat), o melhor pastrami e o melhor homentashen (doce recheado com uva que se come na festa de Purim). Como restaurante, indico o Delishop, também no Bom Retiro.

Para falafel, homus etc, indico o Pinati, em Higienópolis. O Falafel Haüs, no Itaim Bibi, e um restaurante árabe na Avenida Rio Branco – o Rosa do Líbano – na minha opinião o melhor falafel da cidade.

O falafel do Pinati (foto Claudio Schapochnik/18viagens)

Em Israel, vamos lá. O homus de uma aldeia que fica entre Jerusalém e Tel Aviv, chamada Abu Gosh, é o melhor! Para comida oriental em geral e em especial a pita de zatar: o restaurante Abbulafia, de Yaffo, ao lado de Tel Aviv.

Em Jerusalém, na Cidade Velha (bairro muçulmano), há o famoso Abu Shukri, com deliciosas sobremesas árabes. Para shawarma, há os inúmeros restaurantes do mercado Machane Yehuda – talvez um dos melhores lugares para se comer na cidade. Entre estes, destacam-se o Ha´Agas e Manou BaShuk. Imperdíveis!

O Kotel, na Cidade Velha de Jerusalém, em Jerusalém, a capital de Israel (foto Claudio Schapochnik/18viagens)
Zilbovicius e o grupo brasileiro da Marcha da Vida posam junto ao Parlamento alemão, em Berlim (foto reprodução do site do Fundo Comunitário de São Paulo)

18viagens – Em termos de patrimônio judaico (histórico e religioso), o que você já visitou e mais te emocionou? Por quê?
Zilbovicius – Acho que entre tantos lugares que visitei da história judaica seria difícil destacar um. Acho que cada um representa algo da história do povo e que emociona por algum lado da gente. Em Israel, citaria o Muro das Lamentações, em Jerusalém, que, apesar de ser um lugar complicado pelo fundamentalismo judaico predominante, tem a força simbólica da história e da persistência dos judeus. Ainda em Jerusalém, o Museu do Holocausto Yad Vashem, que retrata a memória da barbárie e do compromisso de jamais esquecer.

Em Tel Aviv me emociono com as ruas da cidade, pois simbolizam, na sua gente, a diversidade que demonstra a possibilidade de se praticar o judaísmo em seu Estado de forma livre, sem preconceitos. Ainda em Tel Aviv me emociono muito com o Museu Rabin, mais recente, mas que retrata a história, na figura de Yitzchak Rabin (nascido em 1922), primeiro-ministro assassinado em 1995. Representa a história de uma geração de idealistas que, após anos de histórias militares, abriram espaço para a paz.

Na Polônia me emociona a sinagoga de uma pequena aldeia no Nordeste do país chamada Tykocin, que foi erguida em 1640 e restaurada nos anos 1990. Simboliza a vida de centenas de milhares de judeus que viveram durante séculos em aldeias como aquela, de forma humilde, mas agarrados à sua fé, cultura e identidade. Em Varsóvia me emociona o orfanato de Korczak, médico e pedagogo judeu que foi assassinado em Treblinka junto com crianças de um orfanato que ele manteve no Gueto de Varsóvia.

Além destes eu destacaria na Europa a Casa de Anne Frank e a Sinagoga Portuguesa, em Amsterdã, na Holanda, e o Museu Judaico de Berlim, na Alemanha.

Esclareço que apesar de emocionarem muito, não considero os campos de extermínio nazistas na Polônia como judaicos, como algumas pessoas fazem e, sim, como espaços de reflexão e alerta de toda a humanidade.

A cratera em Mitzpe Ramon, no Sul de Israel (foto Claudio Schapochnik/18viagens)

18viagens – Você já foi algumas vezes a Israel. Qual é a sua sugestão de um roteiro incomum por lá? Por quê?
Zilbovicius – Sim, já estive por volta de 27 vezes (risos). Israel é um país pequeno, porém com inúmeros roteiros incomuns. Você pode sempre descobrir um lugar desconhecido. Entre estes tantos eu destacaria passeios no deserto do Neguev, ao Sul, tanto na região de Sedom, no Mar Morto, como no Centro, na região da cratera de Mitzpe Ramon.

No Centro do país há trilhas belíssimas para se fazer na região de Bet Shemesh, entre Jerusalém e Tel Aviv, e subir pelo caminho antigo da cidade de Jerusalém, conhecido como Burma.

No Norte, na Galileia, o roteiro que atravessa o Vale de Yzreel, com os montes Tabor e Guilboa e as maravilhosas vistas, bem como a estrada que sai de Tiberíades e vai ao extremo norte, na cidade Kiryiat Shmona. Há vistas deslumbrantes do Mar da Galileia (Kineret).

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